5 Sentidos para a Igualdade

5 Sentidos para a Igualdade

O desafio da igualdade é transversal a pessoas em diferentes condições, faixas etárias, classes sociais e contextos. Manifesta-se também em diversas dimensões e deve ser discutido junto da população que carrega diferentes perspetivas, transformações e impactos ao longo do tempo. 

Os 5 Sentidos para a Igualdade é uma iniciativa da ADSCCL integrada na agenda do Dia Municipal para a Igualdade que pretende refletir, sob uma perspetiva holística, intergeracional e inclusiva, os Sentidos da igualdade nas vivências das pessoas da nossa comunidade. 

Começamos com as perspectivas do antigamente: Como era a vida nos outros tempos? Que diferenças existiam? Que semelhanças? Quando é que sentiram que houve uma mudança? Tiveram as mesmas oportunidades que os antepassados? E as que existem agora? São iguais a outros sítios? As (des)igualdades junto da população mais envelhecida é consequência de experiências acumuladas durante o curso de vida e olhar para os seus efeitos permite identificar as mudanças e necessidades que as diferentes gerações enfrentam. De seguida refletimos alguns dos assuntos que foram abordados nas sessões dos 5 Sentidos para a Igualdade junto da população sénior. 

Educação: 

A educação não era acessível a todas as pessoas. Muitos dos nossos seniores não foram à escola, alguns fizeram pouca escolaridade e mais raros ainda foram os que seguiram estudos. A saída da escola era motivada pela necessidade de serem mandados trabalhar de forma a ganhar dinheiro para a família. 

Um facto que destacam também é que os rapazes eram quem mais frequentava a escola e era comum as raparigas ficarem a trabalhar no campo e/ou em contexto doméstico. 

Quem seguia estudos mais avançados era quem tinha mais posses, mas identificam poucas pessoas que o puderam fazer. 

Refletindo sobre como veem as oportunidades na atualidade, reconhecem que tanto homens como mulheres já seguem estudos e que conseguem ter diferentes alternativas de carreira. 

Emprego:

O emprego é outro assunto importante dentro da discussão. As oportunidades de trabalho esgotavam-se maioritariamente no trabalho de campo, floresta e nos lavores das fábricas da região. Aqui reconhecem que se encontram diferenças também entre as zonas mais urbanas e mais rurais, sendo que nas urbanas já existiam serviços, comércio mais diversificado e, por isso, mais oportunidades de emprego. 

Em relação aos papéis de género no emprego, tanto homens como mulheres trabalhavam no campo, mas era comum os homens terem outras ocupações como cargos em serviços (por exemplo Câmara Municipal, Finanças), venda ambulante de produtos (como o azeite) muitas vezes fora do seu concelho, atividades em floresta e fábricas.

Relatam que na fábrica da zona (Boque) também trabalhavam mulheres, mas quando casavam tinham de sair, dando entrada a raparigas novas e a homens. Refletem que a saída deveria estar relacionada com o facto de terem de se dedicar ao acompanhamento à família e trabalho doméstico. 

Comparativamente com as condições atuais, foi identificado que agora as mulheres também trabalham noutros contextos, como por exemplo em repartições de serviços, cargos de chefia (“já há mulheres juízas, também na Câmara Municipal”) e que o conseguem fazer pelo surgimento das creches e amas (“agora têm amas, nós não tínhamos isso, os filhos iam connosco para o campo”) o que cria a possibilidade de conciliar a vida doméstica e o trabalho. Apontam também que antes as famílias eram maiores e agora não tanto, devido ao ritmo de trabalho que as famílias têm. 

Empreendedorismo:

Os negócios que relatam eram maioritariamente familiares, sendo que muitas famílias dependiam apenas do rendimento que dele resultava. 

Social:  

No campo da distribuição de papéis, os seniores reconhecem que notam a diferença na forma como homens e mulheres se comportam atualmente. Antes a lida doméstica estava mais atribuída às mulheres, agora notam nos seus filhos e netos que: “já vão ajudando, a fazer a comida, a lavar a louça”. Demonstram assim uma perspetiva mais positiva em relação à partilha de tarefas.

Uma tendência que identificam é que as mulheres vivem por mais tempo que os homens, sendo que grande parte das pessoas da zona são viúvas. Este fator representa um desafio socioeconómico às mulheres seniores, considerando que um grande número de mulheres não foi assalariada, prestando somente cuidados não remunerados em casa, constituindo uma dificuldade no acesso ao sistema de proteção social, menor poder económico e de capacidade para a autonomia. 

Oportunidades:

O acesso a cuidados de saúde e as medidas de apoio social são apontados como fatores positivos entre as épocas dos antepassados dos nossos seniores e o seu próprio contexto: “a minha mãe com a minha idade já cá não estava, e as senhoras de idade que duravam estavam muito acabadas…”. Referem que isso se deve à capacidade de poderem adquirir bens como roupa e medicação ajustada ao que necessitam, conseguindo qualidade de vida comparativamente aos seus pais e avós. 

É reconhecido pelos nossos seniores que a reforma foi uma medida que veio ajudar muitas pessoas, pois comparado com as gerações anteriores, indicam que não conseguiam ter uma vida condigna, referindo-se frequentemente a “tempos de muita miséria e fome”. Agora com as reformas conseguem ter acesso a outras coisas, mais diversificadas e que ajudam no seu dia-a-dia. 

Para as pessoas remuneradas, foi introduzido também o abono dado às famílias com filhos e é identificado como um ponto de melhoria das condições e qualidade de vida. Não obstante, este apoio não era concedido às camadas mais pobres e que não tinham rendimentos declarados. 

Também uma diferença que notam é o acesso a recursos, como é o caso da alimentação: “antes o jantar era aquilo e aquilo mesmo, agora já podemos escolher se comemos massa, arroz, já há mais variedade”. / “quem é que antigamente comia um papo seco com café? Era só broa e nem sempre!”, sendo também esse um ponto de evolução que reconhecem, podendo fazer uma alimentação mais equilibrada e diversificada. 

(Estiveram presentes nesta discussão – D. Lurdes, D. Altina, D. Trindade, D. Natália, D. Lúcia, D. Maria, Sr. António)